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----------NinGuem e PerfEitO-------------------
Olhei a água límpida daquele lago sereno. Reflexo. Vi-me. Eu. Eu? Seria eu?
Aquele momento fez-me pensar acerca do que seria eu. Acerca da verdadeira essência das coisas, da minha essência, daquilo que sou e não sou, do que já fui, do que serei, daquilo que me fez, me faz e me fará mudar para melhor ou pior. Vi-me forçada a pensar. Porque aquele reflexo instável daquilo que eu era não me dizia nada. E a partir dele tentei descobrir tudo.
Tentei por isso encontrar uma palavra que me descrevesse. A melhor de todas, aquela que não falhava em nenhum sentido, fosse defeito ou qualidade. Encontrei apenas uma: imperfeição.
Depois tentei perceber porque raio apenas essa me descrevia. Seria uma pessoa que facilmente cede à tentação? Demasiado séria? Demasiado descontraída? Pouco humilde? Pouco sincera? Demasiado? Pouco? Faltava-me algo ou, pelo contrário, havia algo a mais em mim? Porquê a imperfeição? Seria pior que os outros? O que fazia de mim aquilo que era?
O meu reflexo continuava dali, estampado na água calma, aparentemente sem expressão. Recusava-se a dizer-me quem era eu, afinal; obrigava-me antes a pensar mais e mais. E eu não percebia.
Naquela altura, parecia que tudo se tinha virado contra mim, como se até as almas e os espíritos daqueles que para sempre vaguearão entre os dois mundos flutuassem na minha direcção determinados a destruir-me. Só me tinha a mim, estava sozinha, era só eu. E agora até o “eu” se virava contra mim. Até o meu reflexo me queria confundir, destruir e massacrar. Não tinha por onde fugir, tinha que pensar, tinha que perceber, tinha que me aceitar, para poder voltar a estar bem com o “eu” e, quem sabe, com as outras almas.
Levantou-se um vento frio que me fez arrepiar e trouxe consigo pétalas delicadas de uma qualquer flor perfeita. E essa perfeição tocou as águas do lago, fazendo-as mexer e então a minha imperfeição desvaneceu-se. Já não havia mais eu. Tinha desaparecido.
Então, se bastava um toque da perfeição para eu me desvanecer… onde estava a verdade, perfeita, nua e crua? Não podia existir, porque se algo perfeito me faria desaparecer… e, contudo, eu permanecia ali… Então eu não podia ser a única imperfeição no mundo, pois se algo perfeito existisse, eu desvanecer-me-ia. Levemente bati com a mão na água e perturbei a serenidade perfeita da água.
E aí percebi. Ninguém é perfeito.
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